LMR, jovem de 20 anos, com deficiência mental permanente (idade mental entre 8 e 10 anos), que vive com sua mãe, em uma humilde casinha em meio a construir, foi estuprada por seu tio, esposo da irmã de seu pai, quem formou outra família e há anos não deseja mais estabelecer contato com sua filha e não lhe dá nenhum tipo de auxílio. Ao sentir-se mal, a mãe a leva ao hospital, onde constatam que está grávida, e logo solicita a interrupção da gravidez, diante do que o hospital se nega, enviandoa para fazer a denúncia policial e para outro hospital da província. Feita a denúncia, a mãe leva LMR, com 14,5 semanas de gravidez, ao outro hospital onde é internada, em julho de 2006, para estudos pertinentes, sendo solicitada com urgência uma reunião do Comitê de Bioética.

Dado que era um caso de aborto não punível, foram feitos os estudos pré-cirúrgicos para operação, quando chegou uma ordem judicial de uma juíza de menores exigindo que fosse interrompido o procedimento. Um processo judicial é iniciado para impedir o aborto. O caso segue em apelação à Câmara Civil, que emite uma decisão confirmando a de primeira instância. A defesa apela e o caso vai à Corte Suprema de Justiça da Província de Buenos Aires, a qual deixou sem efeito a sentença recorrida e resolveu que o artigo 86 inc. 2 do Código Penal, que permitia à jovem interromper a gravidez, era constitucional e, portanto, podia ser efetivado o aborto. Comunica ao hospital que a prática médica que iam realizar é legal e não requeria autorização judicial. Mas de nada vale.

Começa uma longa perpegrinação da família, com apoio de organizações de mulheres, por distintos hospitais desta e outras províncias, mas nenhum quis realizar o aborto. Registram-se ações de ameaça contra o hospital e pressões sobre a família para que não procedam à interrupção, vindas de setores fundamentalistas católicos e do próprio Estado. Logo, diante de toda a negativa, a família se vê obrigada a aceder à interrupção da gravidez de LMR em um circuito clandestino.27 Apesar de contar com recurso legal para decidir sobre seus direitos reprodutivos, LMR não pôde aceder ao mesmo. Foi discriminada no acesso à saúde reprodutiva, violou-se seu direito à privacidade, à intimidade e ao acesso a um aborto seguro dentro do sistema de saúde, razões pelas quais, em maio de 2007, INSGENAR, ACDD e CLADEM denunciam o caso ao CDH/ONU, por violações aos arts. 2, 3, 6, 7, 17, e 18 do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos. O Estado questiona a admissibilidade e o mérito da comunicação; as peticionárias se manifestam. Ao mesmo tempo, abre-se uma mesa de diálogo entre Estado e peticionárias para buscar um possível reconhecimento das violações dos direitos, medidas de reparação e não repetição.